Beans (2020)

 



BEANS

Direção: Tracey Deer

Ano: 2020

País de origem: Canadá

    Texto escrito por Matheus C. Fontes

    11 de julho de 1990. Esta foi a data que marcou o início da chamada Crise Oka, uma disputa por terras deflagrada por uma decisão judicial autorizando a construção de um campo de golfe em território indígena. As Primeiras Nações, representadas no local pelo povo Mohawk, ergueram uma barricada bloqueando o acesso à área. Na fatídica data, a força policial de Quebec (Canadá) foi chamada para intervir no protesto, resultando em um cerco de 78 dias, marcado por uma grande tensão armada entre os lados e por atos violentos contra os povos indígenas na região. A crise tornou-se o primeiro conflito violento entre as Primeiras Nações e o governo canadense no fim do século XX que contou com grande repercussão na mídia.

    É neste contexto histórico-político que o filme Beans insere o espectador para acompanhar, ao mesmo tempo, um coming of age da protagonista (que nomeia o projeto), uma menina Mohawk de 12 anos, e o desenrolar da Crise Oka. A história é baseada nas próprias experiências da diretora Tracey Deer durante o cerco na sua adolescência. Depois de três documentários, ela faz sua estreia na direção de longas de ficção, com este projeto super pessoal e que escancara as dificuldades de crescer como indígena em uma sociedade ainda cheia de preconceitos e que não consegue respeitar aqueles que primeiro ocuparam e cuidaram daquela terra.

    A ideia de construir uma jornada de amadurecimento da personagem central aliado com os acontecimentos retratados é muito sensível, explorando as consequências de crescer sob constante repressão dos que detêm o poder. Nesse arco dramático, o roteiro sustenta o argumento de que, sob tamanha violência, Beans começa a acreditar que a única forma de se preparar para a vida adulta é infligindo dor a si mesma para que os outros não consigam atingi-la na sua fragilidade. Dessa forma, a sociedade tira dela a oportunidade de viver na sua inocência juvenil, obrigando-a a passar até mesmo por um apedrejamento, em uma das cenas mais fortes e significativas do filme. Interessante notar como esse argumento fica evidente na forma como o filme contrasta sua personalidade no começo da projeção com o dos outros adolescentes Mohawk, que convivem entre si.

    Infelizmente, o projeto carece de uma direção mais segura, que acaba refletindo no resto da equipe técnica, que não consegue se destacar em suas determinadas áreas e empobrece a película. Além disso, o roteiro trata o coming of age da mesma forma que outros filmes que abordam a temática, retratando a adolescência sem tanta complexidade, fazendo com que a mudança de personalidade de Beans ocorra de maneira um pouco abrupta (destaque para a cena onde ela começa a falar vários palavrões na frente do espelho, demonstrando a falta de sutileza no seu arco dramático).

    Apoiando-se na performance central da estreante Kiawentiio Tarbell, que entrega um trabalho distante do que a personagem necessitava, o filme é um retrato de uma sociedade que não consegue respeitar os diferentes e insistem em oprimi-los, levando a situações de tamanha desumanidade. Situações estas que, 30 anos depois, continuam tão presentes em todos os cantos do mundo, não apenas contra os povos indígenas, mas contra a comunidade LGBTQA+, as mulheres, os negros e qualquer um que não se encaixe nos padrões opressivos das classes dominantes. Introduzindo imagens de arquivo de forma muito bem pensada, a diretora mostra que os fatos apresentados na tela não são apenas ficção, mas a vida real. A última cena do filme é o resultado de toda a jornada de amadurecimento pela qual a protagonista passou, fazendo com que ela não tenha que se esconder atrás de um nome em inglês e tenha orgulho de pronunciar seu nome indígena. 

FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE TORONTO 2020

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